Produtores que atuam nas atividades de piscicultura e hortifrutigranjeiro falam das experiências e desafios em empreender. Estado conta com mais de 1,8 mil pequenas empresas neste setor. Tanques em que são criadas as tilápias produzidas em Gurupi
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A palavra empreender em seu significado mais literal é decidir realizar determinada tarefa, mesmo sendo difícil e trabalhosa. No mundo dos negócios, aceitar os desafios e assumir qualquer risco que aparecer se enquadra como empreendedorismo. Esses termos podem não ser tão comuns para quem tem na veia a simplicidade e as vivências do campo. Mesmo assim, o Tocantins conta com mais de 1,8 mil pequenos empreendedores no meio rural que buscaram capacitação para ampliar os negócios.
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À frente de um pequeno negócio voltado à piscicultura sustentável, Marise Suzuki começou a empreender há três anos. Nesse meio tempo, o sonho foi colocado à prova por dois grandes desafios: a pandemia e problemas estruturais que a fizeram perder toda a criação de tilápias – mais de 18 mil peixes. Mesmo passando por essas provações, ela não desistiu. Começou e recomeçou, sempre com o objetivo de aperfeiçoar o negócio.
Relembrando o início, Marise contou que a preparação para iniciar a produção começou ainda em 2019. Em março de 2020 ela começou a construção do espaço para criação dos peixes. Entretanto, apenas dez dias depois começar as obras, a pandemia chegou e tudo parou.
“Em 2020 a gente projetou, contratamos uma construtora para fazer. Inclusive, foi dez dias antes de fechar tudo por causa da pandemia. Então eu digo que nós somos crias da pandemia. Fizemos toda nossa construção no meio da pandemia e iniciamos a nossa criação”, relembrou.
Para entrar de vez na piscicultura, ela pesquisou técnicas de criação de tilápias por muito tempo e o que aparecia de feiras desse ramo, ela também estava dentro. Mesmo sendo bióloga e doutora em biotecnologia, viu a necessidade de saber mais sobre o ambiente ‘onde estava pisando’.
A piscicultora Marise Suzuki perdeu milhares de peixes, mas conseguiu começar a criação
Para além de entender de criação de peixes, a microempreendedora também se dedicou a pensar como iria tocar o negócio. Para isso, correu atrás de capacitações voltadas para pequenos produtores rurais ofertadas pelo Sebrae Tocantins.
“Eu sou muito acadêmica e pular da academia para ser empreendedora na verdade foi um passo muito difícil. Porque não é fácil empreender, mesmo para quem tem todo o conhecimento. Então antes de empreender fiz muitos cursos do Sebrae de como lidar com pessoas, o Empretec, algumas metodologias de vendas, análise de perfil. Tentei me formar como gestora e empreendedora antes de ter a nossa piscicultura”, afirmou Marise.
Essa formação como gestora fez a diferença nos momentos mais difíceis, segundo ela, principalmente no enfrentamento à pandemia e na perda dos peixes. Esse segundo grande desafio que aconteceu em 2021, depois que o sistema elétrico dos tanques simplesmente parou de funcionar durante à noite.
Marise Suzuki começou o negócio de piscicultura sustentável em 2020
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“Quando começaram a ter os problemas, eu já tinha uma noção de como lidar. Mas ter noção e lidar com o problema é totalmente diferente. Digo que na hora de dar o ‘play no jogo’ é totalmente diferente daquilo que foi planejado”, afirmou, citando também que entre as dificuldades, fazer a divulgação e até venda dos produtos na pandemia teve que ser muitas vezes de porta em porta.
De tanto correr atrás, se capacitar, passar por cima dos desafios e produzir peixes de forma diferenciada e prezando pela qualidade, a microempresa de piscicultura cresceu mais de 140% e até recebeu premiações.
Mas se engana quem imagina que Marise se limita a vender produtos oriundos da tilápia, como o filé e outros cortes, ou as hortaliças produzidas no mesmo espaço e regadas com a água dos tanques de criação.
Com qualidade, água dos tanques de tilápias são destinadas a ajudar na plantação de hortaliças
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“A gente está cada vez mais projetando para ser uma vitrine para as pessoas virem aprender a cultivar o peixe e a gente conseguir melhorar a cadeia produtiva da piscicultura aqui no estado. A gente começou com um modelo de negócio, pensando só em produção, mas aí a gente viu o gargalo na hora da venda, estudamos como fazer isso e abrimos nosso próprio abatedouro. É pequeno, mas é suficiente para a gente gerar tanto produtos processados quanto novos produtos”, comemorou
De aprendiz sobre empreendedorismo, hoje ela participa de palestras para quem quer seguir passos semelhantes. Sobre os ensinamentos que teve nas capacitações e cursos do Sebrae compartilha os sentimentos de motivação, dedicação e resiliência: “Acho que temos tudo isso na prática, que podemos comprovar e estar sempre prontas para as oportunidades”.
Microempreendedora participa de eventos para contar com superou adversidades na criação da empresa
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Alimentos na mesa com um toque de empreendedorismo
Com 19 anos de experiência plantando e colhendo hortaliças em uma chácara no distrito de Luzimangues, o produtor rural familiar Bruno Batista Santana, de 40 anos, conseguiu construir sua vida com a venda dos produtos cultivados por ele nas feiras de Palmas.
Ele relembra do início difícil, principalmente com as poucas opções que tinha para fazer o transporte da produção para as feiras e a necessidade de lidar com os clientes. Ele também encontrou nas capacitações o caminho para crescer.
“Trabalhamos cinco anos sem assistência e o Sebrae começou a dar uns cursos que começaram por volta de 2010 e seguiram até antes da pandemia. Nós tivemos cursos de logística, como calcular o gasto. De você ver o gasto e depois somar o lucro. Depois entrou o curso técnico, que dava assistências de duas a três vezes no mês. Era muito bom. Deram suporte técnico na lavoura também”, contou.
Produtor Bruno Batista Santana tinha experiência com a a terra e aprendeu técnicas para não ter prejuízo
Patricia Lauris/g1 Tocantins
Um dos aprendizados que Bruno tirou das capacitações é com relação à forma de saber calcular o uso dos insumos necessários na produção e relacionando com o que é atribuído ao valor das hortaliças repassado aos clientes. Por exemplo, os adubos começaram a ser dosados na plantação para que não tivesse uso excessivo e, consequentemente, prejuízo financeiro.
“Antes jogava a quantidade de adubo lá. Ia comprando, jogando, vendia e pronto. Não sabia o lucro certo. Hoje se calcula tudo. Tem o tanto que se joga no canteiro. Antes jogava o que gente aprendeu trabalhando na terra. Mas aí o rapaz [no curso] calculava tudinho, jogava certinho correto. Para não gastar e ter prejuízo, né?”, afirmou o produtor, explicando que na questão do adubo, aprendeu também que a aplicação incorreta pode até comprometer a qualidade do produto.
Importância de lidar com os clientes
O também produtor de agricultura familiar Sérgio Fernandes, de 47 anos, se dedica ao meio rural há mais de 25 anos. Na terra que possui não é possível manter uma produção o ano inteiro e por isso ele costuma comprar verduras e legumes de chacareiros vizinhos para revender nas feiras de Palmas.
Sérgio contou que por causa da timidez, passou por dificuldades para lidar com os clientes, mas isso mudou quando participou de capacitações.
“Eu tinha uma vergonha danada. Eu não vendia antes. Quem ficava mais era minha esposa. Mas antes disso eu tinha muita vergonha. Depois a realidade caiu e hoje não tenho. As capacitações ajudaram demais”, relembrou.
Hoje, a dificuldade citada por Sérgio para ser um pequeno produtor que empreende é o transporte dos produtos para os locais de venda, por não ter um veículo adequado para o serviço. Mesmo assim, para o produtor, o atendimento se tornou o mais importante.
“Uma coisa boa é atender meus clientes. Eu gosto, aqui a gente conhece as pessoas. Eu tinha vergonha e agora acho muito bom. Foi bom passar pelas capacitações “, comemorou.
Perfil e apoio aos pequenos do campo
Trabalhar, produzir e empreender no meio rural são tarefas que podem ser feitas em vários segmentos. Neste ano, o Sebrae Tocantins já contabiliza 1.820 empresas de pequeno porte, microempreendedores individuais e microempresas no ramo.
Segundo Rogério Ramos, diretor técnico do Sebrae estado, o setor de atividade com maior número de registros formais é a pecuária. A cadeia abrange diversas atividades e há microempreendedores que trabalham com abelhas, queijos, plantações de hortifrúti, piscicultura – como a Marise -, entre outros.
Rogério Ramos (à esquerda), diretor técnico do Sebrae, durante evento
Divulgação/Sebrae
Com o intuito de chegar a esses pequenos produtores, que em muitos casos têm mais intimidade com a lida no campo do que com a gestão de negócios, a entidade oferta consultorias, cursos e capacitações para esse público.
“O produtor rural ele tem uma tendência de saber produzir. Ele sabe plantar e sabe colher. Mas ele sabe colocar um preço de produtos desses pra vender? Ele sabe criar uma condição sanitária pra fazer que seu produto seja aceito no mercado e não ter nenhum tipo de resistência? Então, a gente tem uma grande consultoria que dá essa condição dele ter essas informações e, obviamente, prospectar melhor com o negócio, buscando o que todo negócio busca: a renda”, destacou o diretor.
Por meio de parcerias com prefeituras e outros órgãos, a entidade consegue ofertar capacitações para produtores de agricultura familiar de diversas cidades do estado. O diretor explica que muitas ações desenvolvidas chegam a esse público de forma gratuita.
“A gente faz esse link com hortifrutigranjeiros com os feirantes, que na verdade a grande parte deles é produtor, e que vão até as feiras vender seus produtos. Então a gente tem um projeto de qualificação que é o Empreender. Desde orientação na produção, de como ele produz, como tem que fazer com transporte, informações sanitárias, até mesmo técnicas de vendas, para ele vender o produto dele. A intervenção do Sebrae vai de ponta a ponta”, afirmou Ramos.
Programas da entidade também capacitam os produtores para que, com as devidas fiscalizações, possam fornecer os produtos para gestores municipais e estaduais sem precisar de licitações e outras burocracias.
“A gente envolve os prefeitos, as escolas, para que eles possam ter a característica de comprar do pequeno negócio, de ter decisões administrativas para favorecer os pequenos negócios e a comprar direta foge dos formatos de lei estatal. Então há o percentual que pode compra direto”, esclareceu.
São oito agências espalhadas pelo estado para darem suporte aos pequenos negócios, além de consultores especializados que atuam nos municípios onde há maior demanda para capacitações e preparação de pequenos produtores. “Lá eles conseguem cadastrar um MEI [microempreendedor individual], lá ele consegue tirar a guia, fazer com que tenha acesso aos cursos e todo site do Sebrae, onde tem toda a loja. Então linka ele com toda essa situação”.
Diante de tantos benefícios quando se resolve investir e buscar qualificação, Ramos incentiva os pequenos produtores a se formalizarem e se tornarem microempreendedores individuais.
“O MEI ele é tão bacana que com uma pequena taxa mensal, estão inseridos seguros previdenciários, todos os seus impostos e pode emitir notas fiscais para uma prefeitura, de compra direta, em até R$ 80 mil por ano. É uma condição de formalização e consegue contratar com o serviço público, com empresas. Foram muitos os casos, principalmente na pandemia, de pessoas que se redescobriram, se tornaram donas do próprio negócio”, afirmou o diretor.
Rogério Ramos também explica como o produtor rural pode se tornar MEI. Veja o vídeo abaixo.
Diretor do Sebrae Rogério Ramos explica como produtores podem se tornar microempreededores
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Fonte: G1 Tocantins
