Ressurgimento da esquerda na América Latina foi acelerado pela pandemia, tem menos ideologia e enfrentará questões econômicas e ambientais muito mais complexas do que a onda anterior, preveem especialistas. Gustavo Petro e Francia Marquez na comemoração da vitória, em 19 de junho de 2022
Daniel Munoz/AFP
O mapa “avermelhado” que está sendo delineado na América Latina nos últimos dois anos – o que os acadêmicos chamam de nova onda rosa – tem muito menos ligação com matizes ideológicos do que a primeira onda de ascensão da esquerda no continente ocorrida no final dos anos 90 e início dos anos 2000.
O domínio político da esquerda no passado é datado da posse de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, até a derrota da era Kirchner na Argentina, em 2015. Essa nova esquerda que ressurge agora, após a hecatombe da pandemia de Covid-19, enfrentará desafios econômicos e sociais muito mais complexos, especialmente os ligados à agenda ambiental, e vai trilhar um terreno bastante arenoso, sem o amparo financeiro do boom das commodities.
A eleição de Gustavo Petro e Francia Márquez na Colômbia, no último domingo, foi mais um movimento em direção à consolidação desse novo bloco de poder. “A sua vitória fortalece a democracia e as forças progressistas na América Latina”, declarou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suas redes sociais nesta terça-feira (21).
Gabriel Boric, novo presidente do Chile, desfila em carro aberto em Valparaíso
Pablo Sanhueza/Reuters
No entanto, os ambientes políticos extremamente polarizados nos diferentes países da região comprovam que a ascensão da direita – ainda que encurtada pelo coronavírus – não pode ser menosprezada e só se governará com compactuações entre diferentes setores econômicos e sociais. Na Colômbia, por exemplo, Petro venceu por margem estreita, com 50,44% dos votos. O candidato da direita, Rodolfo Hernández, ficou com 47,31%.
A possibilidade de derrota do atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL), e retorno de Lula (PT) em 2023 ao governo do Brasil, como têm apontado as últimas pesquisas de opinião, consolidaria uma aspiração de retomada de um bloco regional latino e atuação econômica conjunta, o que foi solapado pela lógica bolsonarista.
“Só existe um pensamento regional e um pensamento concreto sobre o papel do Brasil na América Latina com Lula ou qualquer outro candidato que tenha compromisso com a visão tradicional das relações internacionais brasileiras. No caso de Bolsonaro, se ele tem alguma ambição geopolítica é que o Brasil vire as costas para a América Latina”, afirma Mathias Alencastro, cientista político, professor de relações internacionais na UFABC e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Alencastro, uma eventual reeleição de Bolsonaro aprofundaria a dinâmica de desvinculação do Brasil com o resto do continente.
A integração do continente na primeira onda rosa, que durou mais de uma década e meia, trouxe resultados consistentes e novidades históricas relevantes, segundo o professor Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional da UFMG e atualmente pesquisador na Latin American Center da Universidade de Oxford.
“A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) talvez tenha sido o que de mais relevante nasceu no período”, enfatiza Lopes. Na visão do professor, a união política do bloco no passado também trouxe consequências sociais, sobretudo pelo fato de o Brasil ter se tornado uma espécie de exportador de políticas públicas como o Fome Zero e o Bolsa Família, além de políticas de desenvolvimento agrário lideradas pela Embrapa.
Pandemia antecipou movimento do pêndulo histórico
Pessoas esperam do lado de fora de cemitério de Guayaquil, no Equador, para enterrar familiares em caixões e caixas de papelão, em imagem de 2020
Jose Sanchez / AFP
Especialistas em relações internacionais salientam que é importante perceber que a duração da direita e da extrema direita no poder só foi encurtada devido à pandemia.
“Imaginava-se que a direita teria um ciclo mais longo na América Latina, como a literatura da ciência política define os ciclos de humores políticos. Mas a pandemia acelerou o desgaste dos incumbentes, de quem está no poder. E calhou que quem estava no poder na América Latina era a direita, com o desgaste de gerir as sociedades na pandemia. A gestão mais desastrada da pandemia foi justamente na América Latina”, ressalta Dawisson Lopes. “Morreu aqui mais gente que em outros cantos do planeta.”
Caso o mundo não tivesse vivenciado o “evento bíblico da pandemia”, pontua Mathias Alencastro, “provavelmente [Donald] Trump teria sido reeleito e Bolsonaro provavelmente estivesse muito melhor” na disputa eleitoral. A brevidade da permanência da direita pelas circunstâncias históricas não enfraqueceram, no entanto, o poder desse grupo político.
É por isso que se observa nessa nova esquerda uma vontade mais genuína de compactuação, segundo Alencastro, especialmente como demonstram Gabriel Boric, 35 anos, eleito em novembro de 2021 no Chile, Petro na Colômbia e Lula, ainda em campanha, no Brasil. O prisma dessa nova esquerda, de acordo com Alencastro, precisará incluir toda a sociedade democrática, o que é positivo.
“As pessoas estão votando na esquerda porque elas viram que sem estado social forte, sem coesão social, não vamos sobreviver neste mundo feito de pandemias e catástrofes climáticas”, sentencia Alencastro. O momento histórico é extraordinário, diz ele, e a esquerda, sob o ponto de vista programático, terá que demonstrar que está à altura do desafio.
Para Dawisson Lopes, é inegável que a atual conjuntura política vai empurrar essa esquerda cada vez mais ao centro. As vozes da direita continuam a emular, diz ele, e “os governos de esquerda na América Latina não conseguirão implementar políticas de socialismo democrático”.
“Esses governos vão se deslocar para a direita porque as sociedades se deslocaram. É difícil imaginar um governo bolivariano”, sustenta. A pauta religiosa e a de costumes é imperativa. “A esquerda que assume agora na América Latina está vestindo uma camisa de força do ponto de vista moral, axiológico, de valores. Isso diminui os espaços políticos.”
A agenda do futuro sem as benesses das commodities
Os governantes da nova onda rosa na América Latina vão se deparar não apenas com dilemas estruturais da desigualdade social no continente, agravados na pandemia, mas também com a agenda imperativa das mudanças climáticas deste século. “Os governos de direita não têm na desigualdade, ou na mitigação da desigualdade, a sua principal plataforma, em qualquer lugar do mundo. A ideia central é gerar riqueza, e não combater desigualdades ou assimetrias sociais”, observa o professor Dawisson Lopes. Só que a direita não lidou bem, segundo ele, com as consequências socioeconômicas devastadoras impostas pela pandemia e se viu numa cilada histórica.
A nova conjuntura e a entrada da agenda da transição verde na pauta global, de forma emergencial, aumenta o desafio da nova esquerda na América Latina, explica Alencastro. Segundo ele, já ficou patente nos discursos dos presidentes do Chile e da Colômbia, que são uma nova geração da esquerda, que “justiça ambiental e social são temas inseparáveis e estão interligadas”.
Moradores e funcionários da prefeitura após o deslizamento em Angra dos Reis
Reprodução/TV Rio Sul
“Não vai se combater a desigualdade no século 21 sem política climática ambiciosa. E não vai ter política climática ambiciosa sem o combate das desigualdades. Obviamente isso é uma revolução paradigmática da esquerda latino-americana, que durante 70 anos acreditou que o desenvolvimento se faria através da mobilização dos recursos naturais”, afirma o professor de relações internacionais.
É cedo para avaliar como essa agenda vai prosperar na América Latina, diz ele, e as visões de política ambiental obviamente não são homogêneas entre os novos governantes. Além disso, é preciso aguardar os rumos brasileiros. A despeito de tantas incógnitas, Alencastro vê os desafios econômicos atuais como oportunidades para a nova esquerda, com possibilidade de explorar novos caminhos diante da divisão de poderes entre China e Estados Unidos. A América Latina, diz ele, poderá experimentar novos acordos comerciais, novos modelos de desenvolvimento, reforçando a autonomia regional, ainda que não tenha uma zona de conforto proporcionada pelo aumento das commodities.
Como esses governos de esquerda não poderão contar com fonte de renda proeminente e o desafio fiscal é uma realidade em praticamente todos os países, os governantes, defende Alencastro, precisam estar mais abertos a novas propostas e abusar da criatividade de gestão.
“A nova onda rosa está muito mais ligada a um desafio de futuro, enquanto a onda passada era muito mais pautada pelo passado recente. Essa onda olha pra frente. A onda passada olhava mais pra trás”, definiu.

Fonte: G1 Mundo


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