Presidente Joe Biden atribuiu a tragédia a traficantes de pessoas. Imigrantes foram achados mortos em caminhão abandonado no Texas, EUA, na segunda-feira (27)
Jordan Vonderhaar/Getty Images via AFP
Famílias de imigrantes do México e da América Central esperam desesperadamente notícias de seus entes queridos nesta terça-feira (28) enquanto as autoridades americanas trabalham na sombria tarefa de identificar as pessoas que morreram depois de serem abandonadas em uma carreta sem ar condicionado no calor sufocante do Texas.
O número de mortos aumentou para 51 nesta terça, 39 homens e 12 mulheres, declararam as autoridades locais em coletiva de imprensa. O proceso de identificação levará dias. Entre os hospitalizados, há um adolescente en estado crítico, acrescentaram.
O motorista do caminhão e outras duas pessoas foram presas, disse o deputado americano Henry Cuellar, do Texas, à agência Associated Press.
Ele disse que o caminhão passou por um posto de controle da Patrulha de Fronteira a nordeste de Laredo, Texas e que não sabia que havia imigrantes dentro do carreta quando passou por ali.
Os corpos foram descobertos na tarde de segunda-feira nos arredores de San Antonio, quando um funcionário da cidade ouviu um grito de socorro do caminhão estacionado em uma estrada deserta e encontrou a cena horrível de dezenas de corpos amontoados, disse o chefe de polícia William McManus.
Mãe e filha se abraçam observando local onde pessoas foram achadas mortas dentro de um caminhão em San Antonio, Texas (EUA), na segunda-feira (27)
Kaylee Greenlee Beal/Reuters
Dezesseis pessoas – seus corpos quentes ao toque – foram levadas para hospitais, incluindo quatro crianças.
Quarenta e seis pessoas foram encontradas mortas no local, disseram as autoridades. Mais cinco morreram depois de serem levados para hospitais, informouo juiz do condado de Bexar, Nelson Wolff, o principal funcionário eleito do condado. A maioria dos mortos eram homens, disse ele.
A contagem de mortes foi a mais alta de todos os tempos em um incidente de contrabando de pessoas nos Estados Unidos, de acordo com Craig Larrabee, agente especial interino encarregado das Investigações de Segurança Interna em San Antonio.
“Este é um horror que supera qualquer coisa que já experimentamos antes”, disse o prefeito de San Antonio, Ron Nirenberg. “E, infelizmente, é uma tragédia evitável.”
O presidente Joe Biden chamou as mortes de “horríveis e de partir o coração”.
Biden lamenta morte imigrantes em caminhão no Texas
“Explorar indivíduos vulneráveis ​​com fins lucrativos é vergonhoso, assim como a arrogância política em torno da tragédia, e meu governo continuará a fazer todo o possível para impedir que contrabandistas e traficantes de seres humanos se aproveitem de pessoas que procuram entrar nos Estados Unidos entre os portos de entrada”, disse Biden em um comunicado.
A oposição não demorou a criticar o democrata por sua responsabilidade neste drama, um dos piores na história do país, acusando-o de não aplicar uma política firme na fronteira.
Depois de um dia com temperaturas que beiravam os 40 graus, “os pacientes que vimos estavam quentes ao toque, sofrendo de insolação, exaustão pelo calor, pois não havia indícios de água no veículo”, descreveu.
Segundo o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, 22 dos mortos são do México, sete da Guatemala e dois de Honduras. “É uma tremenda desgraça”, afirmou.
López Obrador acrescentou que o tema da migração será “central, básico” em sua reunião com Biden em 12 de julho. É uma “prova amarga” da necessidade de apoiar políticas que busquem o desenvolvimento para que as pessoas não precisem sair de seus locais de origem.
‘Indústria criminosa’
Segundo os primeiros elementos da investigação, “esta tragédia foi provocada por traficantes” que “exploram” os migrantes “sem respeito por suas vidas”, garantiu Biden em comunicado.
O presidente americano instou a fortalecer a luta contra “uma indústria criminosa multimilionária” e destacou que foram realizadas 2.400 detenções desde o lançamento, há três meses, de uma ação conjunta entre Estados Unidos e outros países da região.
Os republicanos não se convenceram. O governador do Texas, Greg Abbott, que defende a linha dura contra a migração, culpou as “mortais políticas de fronteiras abertas” do democrata pelo incidente. “Estas mortes estão na conta de Biden”, tuitou.
“Os traficantes de pessoas exploram as fronteiras abertas e os mais vulneráveis pagam com suas vidas”, disse o senador do Texas Ted Cruz.
A chegada de migrantes diminuiu durante a pandemia mas subiu consideravelmente após a eleição de Joe Biden. Muitos passam pela cidade de San Antonio, a 240 km da fronteira com o México.
Cerca de 60 socorristas foram mobilizados para se ocupar dos restos mortais e receberam apoio psicológico, informou seu chefe.
Método comum
Caminhões como o encontrado em San Antonio são um meio de transporte amplamente utilizado por migrantes que tentam entrar nos Estados Unidos.
A viagem é extremamente perigosa, principalmente porque os veículos desse tipo geralmente não possuem sistemas de ventilação ou refrigeração.
Em 14 de junho, guardas de fronteira encontraram 80 migrantes escondidos na parte traseira de um caminhão durante uma operação de rotina próximo à cidade de Laredo.
San Antonio foi cenário de uma tragédia similar em 2017, quando 10 pessoas morreram sufocadas em um contêiner que seguia para os Estados Unidos. O ar condicionado do caminhão estava danificado e o espaço de ventilação coberto.
Dezenas de pessoas foram hospitalizadas por insolação e desidratação, embora se acredite que o caminhão transportasse até 200 pessoas – a maioria fugiu quando o veículo parou em um estacionamento.
O motorista do caminhão foi condenado à prisão perpétua.
O papa Francisco expressou nesta terça-feira sua “dor” pelas tragédias com migrantes, em referência ao que aconteceu no Texas e às mortes de dezenas de pessoas na semana passada quando tentavam entrar na cidade espanhola de Melilla.
Por sua vez, a ONU disse estar “profundamente preocupada”. Isso “ilustra mais uma vez a necessidade crucial de vias legais e seguras para a migração”, declarou em Genebra, na Suíça, uma porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh), Ravina Shamdasani.

Fonte: G1 Mundo


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